A Anfavea (Associação Nacional dos Fabricantes de Veículos Automotores) apresentou um estudo explosivo em seu balanço anual alertando para um cenário que pode custar 69 mil empregos diretos na indústria automotiva brasileira — o equivalente a 75% da força de trabalho atual do setor. O alerta se concentra na expansão dos modelos de produção CKD (Completely Knocked Down) e SKD (Semi Knocked Down), onde veículos chegam da China ou outros países em kits e são apenas montados no Brasil, sem fabricação completa de componentes. A pressão recai especialmente sobre montadoras chinesas como BYD, que adotou o modelo SKD temporariamente até iniciar produção completa em maio de 2026.
O estudo estima ainda perdas de até R$ 103 bilhões para fabricantes de autopeças, redução de R$ 26 bilhões na arrecadação de tributos anuais e impacto de R$ 42 bilhões nas exportações de veículos. A própria Anfavea reconhece que o cenário é extremo e pressupõe mudança abrupta no modelo produtivo.
O que são CKD e SKD? Entenda a polêmica
Para entender a preocupação, é preciso diferenciar os modelos de produção:
Produção completa: fábrica no Brasil produz desde estamparia, pintura, motor, transmissão até montagem final. Gera milhares de empregos diretos e indiretos.
CKD (Completely Knocked Down): veículo vem completamente desmontado da origem. A fábrica brasileira monta todas as peças, mas não as fabrica. Reduz empregos em 40-50%.
SKD (Semi Knocked Down): veículo vem parcialmente montado e já pintado. A fábrica brasileira apenas finaliza a montagem. Reduz empregos em 60-75%.
Importação direta: veículo chega pronto, sem geração de empregos locais. Pior cenário possível.
Quem usa CKD/SKD no Brasil atualmente
Diferentemente do que muitos pensam, o modelo não é exclusividade das chinesas:
BYD: utiliza SKD em Camaçari (BA) temporariamente até maio de 2026, quando inicia produção completa com investimento de R$ 5,5 bilhões.
General Motors: monta Chevrolet Spark EUV e Captiva EV via SKD no Ceará desde dezembro de 2024.
MG Motor: confirmou que usará SKD na mesma fábrica do Ceará a partir de 2026.
Volkswagen: utiliza CKD para alguns modelos importados em situações específicas.
Ou seja, montadoras tradicionais também adotam o modelo quando conveniente, mas a Anfavea foca a crítica principalmente nas novas entrantes chinesas.
Os números do alerta da Anfavea
| Impacto | Valor/Quantidade |
|---|---|
| Empregos diretos em risco | 69 mil (75% do total) |
| Empregos indiretos em risco | 227 mil na cadeia automotiva |
| Perda para autopeças | R$ 103 bilhões |
| Queda na arrecadação de tributos | R$ 26 bilhões/ano |
| Impacto nas exportações | R$ 42 bilhões |
| Investimentos anunciados pelas associadas | R$ 190 bilhões (próximos anos) |
O cenário é realista ou alarmismo?
A própria Anfavea admite que o cenário de 69 mil demissões é extremo e pressupõe uma mudança abrupta e completa no modelo produtivo — algo improvável de acontecer. Vejamos os pontos:
Argumentos da Anfavea (alarmistas):
- Montadoras chinesas podem preferir SKD permanentemente para reduzir custos
- Governo pode não exigir contrapartidas de produção local
- Incentivos fiscais podem beneficiar igualmente quem monta e quem fabrica
- Autopeças brasileiras perderiam mercado rapidamente
Contrapontos (realistas):
- BYD já confirmou investimento de R$ 5,5 bilhões em produção completa a partir de maio/2026
- GWM investiu R$ 10 bilhões em fábrica em Iracemápolis (SP) com produção desde 2025
- CAOA Chery investe R$ 3 bilhões em Anápolis (GO) com produção nacional
- Governo brasileiro historicamente exige contrapartidas de nacionalização
- Montadoras tradicionais anunciaram R$ 190 bilhões em investimentos
BYD: vilã ou bode expiatório?
A BYD virou o principal alvo da pressão, mas a situação é mais complexa:
Contra a BYD:
- Usa SKD temporariamente em Camaçari desde dezembro de 2024
- Dolphin Mini chegou ao Brasil como importado inicialmente
- Escândalo de trabalho análogo à escravidão manchou imagem
A favor da BYD:
- Investimento confirmado de R$ 5,5 bilhões em Camaçari
- Produção completa inicia em maio de 2026 (daqui a 4 meses)
- Fábrica gerará 5.000 empregos diretos quando completamente operacional
- Índice de nacionalização chegará a 60-70% progressivamente
A BYD está usando SKD como estratégia temporária enquanto constrói a fábrica completa — exatamente o que a GM fez décadas atrás quando se instalou no Brasil.
O que o governo pode fazer
A Anfavea pressiona o governo federal por medidas protecionistas:
✅ Exigir contrapartidas claras: produção local mínima para acesso a incentivos fiscais
✅ Prazos definidos: limitar uso de CKD/SKD a períodos de transição curtos (12-24 meses)
✅ Índices de nacionalização: percentual mínimo de componentes nacionais progressivo
✅ Incentivos diferenciados: benefícios fiscais maiores para quem fabrica vs quem apenas monta
✅ Transparência: publicar dados de empregos gerados por cada montadora
Anfavea ou protecionismo disfarçado?
É importante contextualizar: a Anfavea representa montadoras estabelecidas que temem perder mercado para chinesas mais competitivas. O estudo dos 69 mil empregos serve também como ferramenta de lobby para pressionar o governo a criar barreiras às novas entrantes.
Mas há preocupações legítimas. Se todas as montadoras migrarem para SKD permanentemente, o Brasil se tornaria apenas uma linha de montagem final, perdendo toda a cadeia produtiva de componentes construída em décadas.
Conclusão: futuro em disputa
A questão dos 69 mil empregos não é ficção, mas também não é inevitável. O número representa o pior cenário possível, não a realidade atual ou provável.
O futuro dependerá de três fatores:
- Governo: estabelecer regras claras de contrapartidas
- Montadoras chinesas: cumprir promessas de produção local
- Montadoras tradicionais: investir para se manter competitivas
E você, acha que o governo deve proteger a indústria nacional ou deixar o mercado decidir? Deixe sua opinião nos comentários!


